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segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

O diálogo para além do encontro

Depois de anos, decidi reler Paulo Freire. No início da década passada, quando fiz uma especialização em Docência do Ensino Superior, tive o primeiro contato mais sistemático com o educador brasileiro, mas restrito ao estudo de obras mais voltadas para a didática, como a “Educação como prática da liberdade” e “Pedagogia da Autonomia” que se tornaram referência para meu trabalho de conclusão daquele curso. Claro que minha relação com o educador, vem de bem antes, com as práticas do método “Ver-Julgar-Agir” no movimento pastoral e popular na década de 1980. 

Mais tarde no mestrado, construindo a dissertação, me deparo inesperadamente com Freire, quando descobri que minha principal referência, Jesús Martín-Barbero, tinha sido inspirado pelas leituras do educador. Agora, num tempo marcado por profundos sectarismos retorno a leitura de Freire, com sua obra mais densa, “A Pedagogia do Oprimido”. A profundidade da escrita do educador me surpreendeu, principalmente, para um leitor acostumado com seus escritos didáticos. Os conceitos, apresentados neste livro, de horizontalizar a educação, da diferença entre radicalismo e sectarismo e da contextualização a partir dos temas geradores, além de fundamentais, continuam revolucionários. Pouco conseguimos aplica-los não só na sala de aula, mas em nossas vidas sociais e política. 

No entanto, minha relação de leitura com Freire é também bem paradoxal. Além de uma repulsa ao reducionismo dialético freiriano (como se obrigatoriamente todos os fenômenos sociais, fossem desenrolados pelo trinômio tese-antítese-síntese), vejo fortes contradições no autor. Ao mesmo tempo que ele tem como princípios o papel crítico, a problematização da realidade, o diálogo e o “ser mais” , Freire apresenta um inevitável autoritarismo na defesa de suas ideias. A autenticidade, o homem como ser da comunicação e o diálogo como um encontro amoroso entre as pessoas são axiomas não questionados em sua escrita. O ser autêntico, que não é definido nem problematizado, serve de critério de reprovação ou aprovação moral de alguns comportamentos descritos. O homem como ser da comunicação e a vocação do “ser mais” são ideias jogadas sem conceitos, sem questionamentos nem oposições. Tudo isso para defender no fim a crença da superioridade e onipresença no conhecimento intelectual e de uma razão universal e verdadeira.

Comecemos a pensar pelo fim: existe um logos-razão universal único que se impõe-sobrepõe-perpassa todas as representações sobre o mundo e as culturas? Como se sustenta essa ideia, se a racionalidade é uma construção social e histórica, condicionada pelos contextos específicos, podendo ter em cada pensamento racional significados, versões, representações e posições singulares, divergentes e não relacionáveis? Tomemos o seguinte exemplo, adaptado a partir do livra “A ideia de Justiça” de Amartya Sen. Três crianças disputam a posse de uma flauta, compartilhada durante uma temporada de férias. Como vão regressar para suas casas e irão viver longe, só uma poderá ficar com o instrumento. Todas são carentes e possuem uma razão para pleitear a posse. A primeira foi quem fabricou, com recursos comuns, a flauta, mas não sabe tocá-la. A segunda reivindica porque possuía semelhante instrumento, que lhe foi furtado, quando começava a aprender a tocá-lo. A terceira quer a flauta porque é a única que realmente sabe tocar, podendo assim desenvolver seu conhecimento. Diante de uma situação destas qualquer tentativa de excluir um dos plausíveis argumentos será totalmente subjetiva. A razão se apresenta assim inevitavelmente parcial e insuficiente para uma tomada de decisão, por mais, que se tente forçar um diálogo em busca do mérito das argumentações. Talvez o máximo que se consiga, num debate deste, é a vitória da performance da retórica ou sobreposição da insistência sobre o cansaço.  Ambas situações não possuem qualquer sustentação na construção horizontal de uma racionalidade universal e dialógica (no sentido de encontro amoroso entre os homens). Pelo contrário, representam uma forma de opressão da persuasão ou do ativismo.

Ademais da necessidade de re-des-construir o mito do logos universal e da superioridade do conhecimento intelectual, tão propagado desde positivismo científico de Augusto Comte, por mais que se busque a horizontalidade e a participação na sua construção, é necessário questionar também os limites do diálogo. Num ambiente de múltiplas e, muitas vezes, divergentes racionalidades, como o diálogo pode ser considerado como um encontro amoroso das pessoas¿ O diálogo também não o é quase sempre conflitivo? O que condiciona as posições das pessoas numa relação dialógica são sempre posicionamentos racionais ou, na maioria das vezes, sentimentos (empatias, frustações, traumas, crenças...)? E sendo assim qual o papel dos sentimentos nas relações sociais? Devem estar a reboque, reprimidos e sob controle do logos pretensamente universal? Como equalizar sentimentos subjetivos e razões particulares? Talvez, Freire respondesse com a fé incondicional no radicalismo do ser mais das pessoas. Mas essa fé não é tão só mais uma das muitas expressões políticas culturais possíveis, que, para ter validade, necessariamente deverá ser compartilhada com todos e todas? Vê-la diferente não é manifestação do autoritarismo?

O diálogo, sem sombras de dúvidas, é fundamental na vida social. Através dele podemos nos encontrar, debater, compartilhar pensamentos, trocar e conflitar ideais, mas dificilmente conseguimos chegar a um consenso porque o que nos faz pessoas são nossas diferenças, caso contrário, seriamos simplesmente simulacros sem personalidades, em outras palavras, cópias um dos outros. Nesta condição, o diálogo, pensado nesta inevitável condição agonística, como nos ensina a pesquisadora belga Chantal Mouffe, parte da humilde meta de construir acordos razoáveis, que não necessariamente vão mudar nossa forma de ver o mundo ou superar nossas diferenças, mas vão ser tecidos transparente e intencionalmente para possibilitar nossa tolerância, coabitação e convivência. São cessões que, muitas vezes, ferem nossas convicções e nossa - tão exaltada por Freire – autoconsciência. São decisões diante dos conflitos intransponíveis, baseadas na alteridade e na reciprocidade. Pensar no outro e fazer (exigir) que o outro também pense em nós. E aí podemos encontrar algo bem mais humilde e altero do que o “ser mais” e mais viável do que a crença na razão universal: a razoabilidade da política. Assim a educação é também um ato político, que, além de partilhar conhecimentos, possibilita o respeito e a aceitação de outros conhecimentos que divergem da ciência. 

Referências:
FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.
__________. Pedagogia da autonomia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2000.
__________. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.
MARTÍN-BARBERO, Jesús. Ofícios de cartógrafo: travessas latino-americanas da comunicação na cultura. SP: Ed. Loyola, 2004. 
MOUFFE, Chantal. O regresso do político. Lisboa: Gradiva, 1986.  
SEN, Amartya. A ideia de Justiça. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. 

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Latour: o obscurecimento da diversidade nas máquinas e no conhecimento?

Minha sobrecarga durante a investigação doutoral faz com que alguns autores permaneçam anos na minha fila de espera para lê-los. Dentre estes Deleuze, Gatarri, Elias e o francês Brunol Latour, que se destaca não só por estar constantemente circulando nas discussões sobre comunicação, redes, internet e tecnologias, mas por meus pré-conceitos a sua ideia de inteligência artificial e às apresentações sobre sua teoria.

O último contato com as ideias latoursianas foi na palestra do Prof. Dr. André Lemos da Universidade Federal da Bahia (UFBA), um dos principais pesquisadores brasileiros de Cibercultura, durante a Semana de Abertura do semestre do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 25 de março de 2015.

Três questões me incomodaram em sua fala. Primeiro, a ideia de imunidade de Latour às políticas epistemológicas porque sua teoria não estaria inserida na lógica de disputas acadêmicas, mas pertenceria a lógica de agregar conhecimentos. O questionamento me foi inevitável: seria possível a construção de uma teoria ou epistemologia fora dos conflitos e articulações dos grupos que criam ou se inserem os pesquisadores na construção teórico-metodológica¿ Essa pretensa imunidade não serviria para encobrir uma posição política e epistemológica da ingênua crença nos consensos?

Outra questão que me incomodou foi a forma como Lemos apresentou a ideia de diversidade dos conhecimentos para Latour, afirmando que, por exemplo, as ciências não teriam chaves de leitura para entender a dança da chuva, dado que iria ridiculariza-la por sua ineficácia no estímulo às precipitações. De qual ciência está se falando? Do utilitarismo científico do século XVIII? Talvez neste caso a afirmação pudesse ser aceitável, no entanto as ciências possuem sim, atualmente, chaves de leituras para relacionar-se com essas diversidades de representações, discursos e vivências sobre o real.

O interpretativismo da antropologia cultural de Clifford Geertz, por exemplo, procura relacionar-se com essa diversidade, compreendendo a partir da descrição densa os valores culturais dos grupos como próprios de sua expressão e adaptação ao ambiente, às construções simbólicas, à história e à política. Assim nesta perspectiva, a dança da chuva é uma valiosa manifestação, rica de signos que revelam o grupo cultural, as relações sociais e as disputas de poder.

Por fim, senti outro incômodo com a utilização do conceito de mediações como sinônimo de tradução e preposição. Ora, mediações não são abreviações de intermediações, que até poderiam ser interpretadas assim e nessa perspectiva, os dissensos e disputas inevitáveis nas relações humanas seriam obscurecidos. Mediações são deslocamentos. São práticas culturais. Assim, imprescindivelmente diversas, conflitivas e agonísticas. Creio que nesta abordagem, a epistemologia da comunicação poderia ser melhor contextualizada em sua condição de historicidade e a diversidade das ciências compreendidas.

Principais livros de Bruno Latour: Jamais fomos modernos e Enquête sur les modes d'existence.



segunda-feira, 17 de junho de 2013

Educomunicação: O resultado positivo de uma ação conjunta



Por Soriel Leiros, Diana Valentina e José Gabriel 

No decorrer do primeiro semestre de 2013, nos deparamos com diversos conceitos da área de Comunicação, inclusive, a própria definição do que é Comunicação, importantes para nós, jornalistas em formação. Resgatamos autores, dividimos opiniões, realizamos debates e discussões. Conhecemos novas possibilidades de mudança, da defesa da coletividade, da reivindicação de direitos, da tentativa de integração com os diferentes setores da sociedade, enfim, nos deparamos com o ideal de comunidade, daquilo que pode ser e, de fato, é popular.

O encerramento da disciplina foi marcado pelo contato com mais um ponto dentro desse contexto: a educomunicação. Já que respondemos tanto a pergunta “o que é?” durante os últimos meses, chegou o momento de entender como funciona a educação e a comunicação juntas, e qual o resultado da junção desses dois universos.

A educomunicação tem como proposta de criação de ambientes comunicativos abertos, onde podemos ter diálogos criativos em espaços educativos, quebrando assim a hierarquia existente na forma atual de distribuição de conhecimento. Sua meta é construir a cidadania a partir da ideia de que todos têm direito à expressão e à comunicação.

A partir da educomunicação é possível promover uma educação onde o sujeito é colocado a pensar, desenvolver sua consciência e seu senso crítico, o que é extremamente importante dentro nosso país.

Como exemplos da educomunicação na prática, temos a ONG Catavento, que existe desde 1995 e atua principalmente na democratização e compreensão das diversas formas de comunicação. Promovendo encontro de culturas diferentes, sempre tentando mobilizar e sensibilizar profissionais para a importância dos processos comunicativos. A ONG desenvolve projetos em todo o Ceará e tem como foco ações no contexto do semi-árido.

Site da ONG Catavento

Outro exemplo interessante de ser citado é a ONG Viração, criada em 2003 e que atua nessa área divulgando práticas de educomunicação e mobilizando jovens e educadores. AONG tem projetos como a Revista, Agência de Notícias e mais 131 projetos desenvolvidos nos dez anos de sua existência.


Site da ONG Viração


A adoção do modelo pelo governo
Com a proposta da educomunicação também foi criado um curso de Licenciatura na USP, visando o desenvolvimento e atuação do educomunicador. O objetivo do curso é suprir a demanda criada pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional que, década de 90, introduziu a comunicação, suas tecnologias e linguagens como conteúdos metodológicos no ensino médio do país.

O governo federal também adota o modelo de educomunicação em algumas ações desenvolvidas pelo Ministério do Meio Ambiente. O Programa Nacional de Educação Ambiental (ProNEA) caracteriza-se pela articulação de estratégias que tem na educação ambiental o principal foco. De acordo com texto, disponível no site do Ministério, “Em atendimento à lei 9795/99, da Política Nacional de Educação Ambiental, esta linha de ação tem como objetivo proporcionar meios interativos e democráticos para que a sociedade possa produzir conteúdos e disseminar conhecimentos, através da comunicação ambiental voltada para a sustentabilidade”.

Encontro de Educomunicação
A educomunicação parece muito mais abrangente do que se imagina. Você sabia que existe um encontro nacional para educomunicadores? Em 2012, foi realizado o IV Encontro Brasileiro de Educomunicação, que discutiu várias temáticas, como “Educomunicação Sociambiental”, “Educomunicação e Saúde”, “Pedagogia da Comunicação” e “Mediação tecnológica em espaços educativos”. O evento ocorreu no bairro de Vila Mariana, na cidade de São Paulo e, ao todo, de acordo com a programação, contou 4 mesas-redondas, 20 painéis e 78 papers.


A seguir um vídeo sobre Educomunicação com o prof. Ismar de Oliveira Soares, da Usp.



Links para saber mais:





segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A liberdade de expressão semeia a intolerância e o desrespeito aos grupos diferentes?


Por Ismar Capistrano C. Filho

Dezenas de mortos, centenas de feridos e milhares ofendidos. Esse é o saldo de mais uma publicação de um veículo ocidental agressiva ao Islamismo. Os desrespeitos ao fundador da religião, no filme “A inocência do Muçulmanismo” do diretor estadunidense Alan Roberts, foram suficientes não só para causar a ira, os distúrbios e a violência, mas para fazer-nos refletir sobre o papel social da liberdade de expressão. Afinal esta garantia é um meio e um fim da vida social? Há critérios para seu exercício?

terça-feira, 3 de julho de 2012

Bairro Antonio Bezerra conquista espaço na Internet

Moradores do Antonio Bezerra,localizado em Fortaleza, Ceará, conquistam como aliado o site do bairro. Inácio Rocha, administrador desse veículo, explicou suas experiências com o site, seu surgimento e suas características.



Portal Messejana aproxima moradores do bairro na Internet


Messejana possui um portal que divulga os principais acontecimentos da localidade, sendo considerado um espaço que gera debates dentro da comunidade e em todo o Brasil. Neste site, existe a ferramenta Mural de Recados onde qualquer internauta que esteja cadastrado pode deixar o seu recado, elogiando, criticando ou até mesmo divulgando algo que seja de seu interesse.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Veículos de comunicação popular de Fortaleza organizam mobilização

Os veículos de comunicação popular de Fortaleza reuniram-se, na tarde da sexta, 30 de março, na Escola Municipal Mozart Pinto. Além de compartilhar suas conquistas e dificuldades, decidiram organizar-se para lutar pela criação do Fundo de Sustentabilidade da Comunicação Comunitária no Ceará. Para isso, estão articulando com deputados estaduais a apresentação do projeto de indicação que deverá contemplar os projetos de comunicação comunitária com, pelo menos, 30% das verbas publicitárias do Governo do Estado. A mobilização cobrando a aprovação deverá acontecer no dia 18 de maio às 10 horas na Assembleia, data posterior ao Dia Mundial das Telecomunicações. "Esta mobilização deverá ter também a participação de todos os veículos de comunicação comunitária das diferentes regiões do Ceará", defende Sérgio Lira da Abraço Ceará.

Participaram da reunião, além da Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária no Ceará (Abraço Ceará), as rádios comunitárias Dias Macedo, Dendê Sol, João XXIII e Pólo Fm, os sites Antônio Bezerra, Rede Mulher e Messejana, o jornal Vila Notícias e as produtoras de vídeo Tv Janela e Tv Unlaw. “Acreditamos que esse é o começo de uma organização que poderá criar uma entidade a nível estadual de comunicação comunitária”, afirma Valdenor da Tv Janela. “Só através de nossa união que teremos força para conquistas mais significativas”, concorda Ismar Capistrano da Abraço Ceará.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Oficinas capacitam comunicadores populares no Dendê e na Pedra

Os estudantes de Projeto Experimental de Jornalismo Imprenso e Comunicação Comunitária da Faculdade 7 de Setembro realizam Oficinas de Comunicação Popular nas comunidades fortalezenses do Dendê e da Pedra no sábado, 17 de dezembro. Na primeira, serão apresentadas técnicas de produção de Jornal Popular. “A turma de Impresso iniciou a produção de um jornal experimental para o bairro, para o projeto ter sustentabilidade, necessitamos treinar a comunidade para a elaboração”, explica o professor Ismar Capistrano.

A capacitação acontecerá para membros da comunidade e estudantes da Escola Matos Dourado das 8 às 17h30min. Serão apresentadas noções sobre jornalismo, os gêneros textuais, reportagem e redação jornalísticas. “Nossa ideia é complementarmos a Oficina com outras sobre fotografia, diagramação e publicidade para a própria comunidade manter o Jornal”, defende Patrícia Montenegro.

Já no bairro Pedra, os estudantes da Escola Eneife Tristão de Alencar e os radialistas da emissora local participarão de uma Oficina de Rádio que apresentará o papel social da rádio comunitária, as características do meio, linguagem e programação radiofônica. “Iremos dar uma contribuição para a comunidade da Pedra aproximar-se mais de sua emissora e ocupar espaços na programação”, defende Leo Porto que participará da Oficina.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Jornal Inverta comemora 20 anos de mídia radical

Por Amanda Moura, Rosane Gurgel e Iana Susan

“Como se faz comunicação com poucas opções?” É com essa indagação que o convidado da disciplina de Comunicação Comunitária, Jairo Carvalho, vulgo Jairo Cubano (foto), formado em história, começa a dialogar e debater sobre o jornalismo popular, mais precisamente, sobre o Jornal Inverta.

O Jornal Inverta é invenção de um movimento histórico brasileiro, que ficou conhecido como “a resistência da oposição da ditadura militar”, em 1964. Esse movimento era integrado principalmente pelas pessoas que pertenciam à ala vermelha do PCdoB, que também participaram da luta armada. “Esses militantes tiveram que se exilar, quando voltaram com a anistia resolveram se organizar na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro que, aliás, naquele tempo, era o lugar mais perigoso do Brasil. Luiz Carlos Prestes virou tutor dessas pessoas. A mensagem era conscientizar o mundo mostrando a outra face que a grande mídia de 64 estava fazendo”, comenta Jairo Carvalho.

Inicialmente, a idéia do Inverta não era muito aceitável. Muitos explanavam falando que o jornal não duraria seis meses. Porém, para a surpresa e orgulho de muitos, o Jornal está com vinte anos de reprodução em quase todo o Brasil. Vinte anos a serem destacados na história da imprensa comunista no Brasil. Além disso, o Jornal tem grande participação na imprensa internacional, pois também produz o Gramma Internacional. “Cuba enfrenta um bloqueio há 52 anos pelo EUA, o que impede para comercializar com outros países. Cuba necessita de uma solidariedade internacional para manter seu processo da revolução. O nosso trabalho é esse, divulgar a literatura cubana, através do Gramma Internacional no Brasil a partir da cooperativa do Inverta.”, explica Jairo, com muito orgulho.

O jornal além de comemorar 20 anos de movimento, também festeja 19 anos de circulação do Gramma Internacional no Brasil, sete anos do acordo Prensa Latina (agência de notícias fundada há 50 anos em Cuba pelo revolucionário Che Guevara) e quatro anos do Movimento Continental Bolivariano. O Inverta funciona hoje como órgão central do PCML (Partido Comunista Marxismo e Leninismo). Jairo Carvalho lembra a frase que Lênin repetia “O jornal não é apenas um propagandista coletivo e um agitador coletivo. Ele é, também, um organizador coletivo”.

domingo, 13 de novembro de 2011

Sindicato e Imprensa: Diálogo possível?



Bem lembrado pelo comunicólogo Vladimir Caleffi Araujo, em artigo sobre o jornalismo de informação sindical no Brasil (2003), a comunicação veio, em seu processo histórico, se atrelando e invadido os mais variáveis campos da vida social. Com isso, os grandes centros midiáticos se constituíram a partir de iniciativas de empresas, partidos políticos, associações, igrejas e tantas outras formas de organização.

Destas tantas possibilidades de origem comunicacional, situam-se dois distintos meios, que propagam suas informações sob pontos de vista e criteriabilidade bem definidos. Tratam-se do jornalismo sindical - aquele originado da necessidade de veiculação das manifestações de cunho político da classe operária – e o jornalismo corporativo, definido com aquele que transmite informações ao público pela ótica financeira.

Estes detalhes, claramente diferenciados de cada um, acabam por tornar o relacionamento entre jornalistas de grandes jornais, TVs, portais ou rádios, e os jornalistas responsáveis pela comunicação sindical um grande encontro para debates e, por vezes, desentendimentos homéricos. É a clássica situação do choque de interesses. O do sindicato, de apresentar a sua linha argumentativa acerca das reivindicações trabalhistas, e o dos grandes jornais, de moderar aquilo demandado pela voz da classe setorista de acordo com seu ciclo de relacionamentos políticos e econômicos.

Não é de se espantar que muitas das informações apuradas por um repórter de um grande meio de comunicação, através de entrevistas com representantes sindicais, não saiam nas páginas do periódico no dia seguinte. Isto ocorre porque nem toda a posição política exposta clara e vorazmente pelo sindicato em questão será o cerne da pauta da empresa responsável pela reprodução massiva do noticiário.

Em âmbito de interesses, podemos encontrar uma similaridade entre o jornalismo sindical e o corporativo. Os dois têm caráter institucional. Visto que consideremos este jornalismo aquele que se volta a questões da instituição, não importa sua origem. Assim como o grande jornal da cidade direciona seu discurso milimetricamente traçado para que não atinja seus parceiros publicitários e investidores com matérias comprometedoras, a comunicação que parte dos sindicatos canaliza a produção informativa parcial para que seja apresentada a versão clara das manifestações dos trabalhadores perante seus chefes e ao Executivo.

Dan Irvin Rather, jornalista estadunidense com mais de 50 anos de atividade, tem grandes acontecimentos marcados em sua carreira. Dentre estes, estão a cobertura do assassinato de John F. Kennedy e o escândalo do caso amoroso envolvendo Monica Lewinski e o ex-presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton. Rather trabalhou em grandes empresas. A principal delas, o poderoso grupo CBS.

Apesar de pertencer ao grande centro do jornalismo mundial, onde interesses correm pelas portas além das Redações, ele não deixou de lado os valores jornalísticos. Pois, não podemos esquecer, a pessoa que escreve também é um trabalhador. Trata-se de um jornalista que está ali todos os dias, indo à rua atrás de novas histórias, continuações, resolução de imbróglios. Muitos deles descobrem os reais interesses e ligações externas da mídia que os emprega apenas depois de ter o texto barrado na última hora de edição.

Há, de certo, muitos embates em que o jornalismo sindicalista acaba por tornar a figura do jornalista que o entrevista aquela responsável pela distorção, omissão ou criminalização – palavras chave de muitos discursos sindicais – dos fatos apresentados pela instituição conhecida por sindicato.

É também certo que muitos jornalistas, motivados ou não pela postura editorial (algumas vezes, pela total ausência desta), agem de maneira dissimulada para com os sindicatos, prontos em exprimir declarações desconcertantes para desconstruir a imagem destes diante do público. Quando isto ocorre, fatidicamente, o meio que exerce este serviço promove a disfunção de deturpar e criminalizar as reivindicações sindicais diante do público.

O último caso citado quase sempre acontece por motivações políticas e ideológicas. Não é difícil constatar que os sindicatos, historicamente, serviram de berço para a formulação de novas legendas no País – vide o caso do Partido dos Trabalhadores, por exemplo. E quando estas instituições, opositoras dos donos de Organizações e interessadas na preservação de direitos e privilégios dos empregados, se mostram como fator desestabilizador do meio social, eis o surgimento de um ‘inimigo feroz’ para grande parte da mídia corporativa.

Voltemos ao caso de Rather. Aos 74 anos, em 2005, o jornalista apresentou pela última vez seu noticiário Evening News. Largou a emissora que fora sua casa por 44 anos. Perguntado sobre o porquê de ter tomado a decisão, ele afirmou que queria seguir um caminho mais independente. Disse: "O jornalismo em sua melhor forma é um alerta, não uma canção de ninar. Eu não estou no negócio de canções de ninar".

O depoimento de Dan Irvin Rather com certeza causou alvoroço, principalmente no setor de entretenimento. Classificações como “declarações polêmicas” podem ser premeditadas diante de tal fluida declaração, vinda de alguém que passou anos na CBS. Porém, em sua essência, o que Rather mostra é uma lição.

Não importa quão imperiosa seja a empresa na qual o jornalista bata o seu ponto, o compromisso dele vai além das instituições. Portanto, cabe a ele compreender o seu papel de apresentar as versões após apuração afincada de todo e qualquer caso. Se os interesses do jornal no qual ele trabalha impedem sua matéria de ser veiculada, esta é outra história, e nós bem a conhecemos. Mas o jornalista pode fazer o seu papel.

Portanto, ao entrevistar o responsável pelo meio sindical, o repórter deve ouvi-lo, interroga-lo com sapiência e se ausentar de qualquer condução malévola e egocêntrica. É preciso que entenda o caráter posicional da figura do comunicador no sindicato. Assim como este deve entender que nem tudo o que proliferar aos blocos de notas e gravadores do jornalista a sua frente, estará nas páginas do jornal no dia seguinte. Os conflitos não devem ser pessoais. A mágoa jornalística só complica as relações fundamentais para a comunicação.

Vídeo

O editor-executivo do O POVO Online, Erivaldo Carvalho, exerceu seu ponto de vista sobre como está situada a organização da comunicação dos sindicatos. Sob a ótica de quem está numa empresa jornalística, dá sua opinião sobre o comportamento dos representantes institucionais defronte a sua necessidade midiática. Confira o vídeo clicando aqui.

Por André Victor Rodrigues


terça-feira, 7 de dezembro de 2010

CPC debate a democratização da comunicação em 2010




Comissão cearense trabalha em prol da efetivação das propostas aprovadas durante Confecom


Depois da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), realizada em Brasília há um ano atrás, a Comissão Pró-Conferência do Ceará (CPC-CE) tem se organizado para gerar debates, de forma ampla, sobre a democratização da comunicação cearense. A comissão tem promovido, desde março, quando realizou o Seminário “Novos Rumos para a Comunicação do Ceará”, diversas iniciativas para discutir e avaliar as propostas aprovadas na Confecom e os novos caminhos da comunicação no estado.

Durante todo o ano de 2010, em reuniões, eventos sociais, palestras, grupos de discussão, seminários ou debates, a CPC buscou direcionar os seus esforços em concordância com o que foi discutido durante a Confecom. “Foi elaborado um planejamento estratégico da Comissão, com o intuito de se ter uma ação eficiente”, afirma o jornalista Tiago Montenegro, Assessor de Imprensa do Núcleo de Comunicação Alternativa da Prefeitura de Fortaleza.

A criação do Conselho Federal de Jornalismo para fiscalizar as atividades de jornalistas e meios de comunicação, a criação do Código de Ética do Jornalismo para regular as práticas jornalísticas, e a criação do Observatório Nacional de Mídia e Direitos Humanos, para coibir supostos desrespeitos a movimentos sociais são algumas propostas aprovadas na Confecom 2009.

Propostas como a volta da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista, restrições à propriedade de veículos de comunicação por uma mesma pessoa, a chamada propriedade cruzada, proibição da venda ou do aluguel de espaços na grade da programação de emissoras de rádio e TV, e a distribuição em igual porcentagem das concessões de canais de TV por assinatura entre iniciativa privada, sociedade civil e poder público, também foram vitoriosas na conferência. “Muitas dessas propostas se tornaram e estão prestes a se tornar Projetos de Lei no Congresso Nacional. Nosso objetivo é organizar manifestações por todo país que acelerem a tramitação e aprovação desses projetos”, disse o professor Ismar Capistrano, um dos coordenadores da Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária no Ceará (Abraço-CE), durante debate em Fortaleza em março deste ano.

Para o jornalista Edgard Patrício, articulador institucional da ONG Catavento Comunicação e Educação Ambiental, as ações organizadas pela CPC devem possuir 4 eixos de atuação. Controle e acompanhamento das propostas aprovadas por parte da sociedade, “definindo as propostas prioritárias para o avanço nas discussões”.

Articulação entre grupos com o mesmo propósito a partir da criação da Rede de Controle Social da Comunicação. “Essa rede possibilitaria um trabalho para articular e intercambiar iniciativas desses grupos”. Edgard ainda defende como eixos, a criação de um espaço de discussão das temáticas relativas à comunicação, “para não ficarmos dependentes apenas das propostas discutidas na conferência”. E dar visibilidade as iniciativas populares e alternativas de comunicação. “Como comunicação e educação, e comunicação e direitos humanos”, diz ele.

Diversas entidades de comunicação do estado, como agências de notícia, ongs e federações são representadas na CPC. Seus membros são importantes referências nos estudos críticos da comunicação no Ceará. Neste ano, a comissão limitou suas ações se baseando na triagem de propostas e acompanhamento das propostas prioritárias da Confecom. A CPC define como prioridade, a criação de conselhos municipais e estaduais de comunicação, municipalização das rádios comunitárias, promoção de políticas de apoio e fortalecimento de iniciativas populares e comunitárias e concentração de esforços para a criação do Fundo Municipal e Estadual de Comunicação Comunitária. “Além das reuniões semanais da comissão, houve uma boa mobilização para a realização de audiências públicas e seminários”, acrescenta Tiago Montenegro.

A comissão organizada no Ceará - A Comissão Pró-Conferência de Comunicação do Ceará (CPC-CE) começou a se organizar em julho de 2008 e seu efetivo funcionamento se deu a partir de fevereiro de 2009 com a participação de mais de 30 instituições, além de outros integrantes individuais, como comunicadores populares. A CPC-CE têm se reunido para mobilizar a sociedade civil, agentes públicos e outros interessados no tema da comunicação social. Antes, para pressionar o Governo Federal pela realização de uma Conferência Nacional para o setor e agora, depois da realização da conferência, a comissão trabalha em prol da efetivação das propostas aprovadas durante o evento. Os encontros da CPC têm envolvido diferentes públicos, como organizações não-governamentais, rádios comunitárias e educativas e entidades estudantis, além de representantes da Prefeitura Municipal de Fortaleza e de mandatos parlamentares.

A jornalista Mônica Mourão, da CPC-CE, explica que a mobilização que ocorre no Ceará é conseqüência direta da articulação de coletivos, movimentos, partidos políticos, sindicatos, mandatos parlamentares, órgãos públicos, universidades e outras instituições que, desde 2007, fortalecem o Movimento Pró-Conferência Nacional de Comunicação. “Essa iniciativa formou uma rede atuante de comissões em todos os estados, com a constituição de comissões estaduais por todo o Brasil. Neste contexto, surgiu a CPC do Ceará”, explica ela.

A Comissão Cearense Pró-Conferência de Comunicação possui diversos núcleos de trabalho como Planejamento, Mobilização e Finanças. “É uma articulação constante e aberta a todos os comunicadores e demais interessados no tema.” Segundo a jornalista, a CPC é uma ferramenta de convergência democrática, sendo divulgada da forma mais ampla possível, “inclusive com a manutenção de comunidade e grupo de discussão abertos na internet, por exemplo”, pontua Mônica.

Por Naiara Cunha

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Vídeo popular, Uma idéia na cabeça e uma câmera na mão


O vídeo popular é uma manifestação intensa, mas em geral isolada, onde fica evidente a dificuldade de articular-se uma troca e uma discussão constante entre os diferentes grupos populares a partir de uma temática em comum.

As primeiras entidades que patrocinaram e deram espaço para esses vídeos serem produzidos foram as igrejas e as universidades, que serviram como grandes núcleos de oficinas de aprendizagem, de técnicas e edição do material, que posteriormente seria exibido em grandes espaços públicos por telões.

Alguns exemplos de Movimentos Sociais engajados na produção de vídeos populares são a Associação de moradores, os Direitos humanos e o Movimento sem terra (MST). Os vídeos são classificados em categorias: Autoscopia, Registro, Edição simples, Documentário e Roteiro original.

Autoscopia é quando são feitas filmagens internas, ao acaso sem nenhuma intenção de publicar o material posteriormente.

Registro é a filmagem de eventos sem roteiro prévio.

Edição simples são esses registros editados sem roteiro, meramente organizados e com cortes bruscos de edição

Documentário é um vídeo baseado na realidade da comunidade e possui um roteiro prévio.

Roteiro Original pode ser ficção e possui elementos de dramatização.

Esses vídeos são pequenas células revolucionárias se movimentando e gerando registros de suas realidades com denúncias de torturas e descaso pela mídia, força policial e políticos do país.

A valorização dessa pluralidade de vozes e acesso as tecnologias midiáticas permite que mesmo não sendo publicado nos grandes jornais e transmitido pelas grandes rádios as denúncias cheguem ao conhecimento da grande mídia. O que acontece é que esse jovem da comunidade, com a câmera na mão, posta um vídeo que pode ter milhares de acessos e por demanda e pressão da opinião pública precisa ser publicado pela impressa.

Portanto, os movimentos populares podem através dos vídeos abrir pequenas brechas nos grandes monopólios midiáticos e criar fissuras que deixem entrar um pouco da luz de realidade na casa de todos nós.

Por Natália Tavares

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Burocracia pode atrapalhar Conselho de Comunicação na Bahia

As primeiras discussões sobre o formato, as funções e a composição do Conselho de Comunicação Estadual na Bahia já dão sinais das dificuldades a serem enfrentadas para que o projeto seja efetivado. Governo, sociedade civil e empresários debatem o documento a ser enviado pelo Executivo à Assembléia Legislativa desde janeiro, num Grupo de Trabalho (GT) criado pelo governador Jaques Wagner (PT) na etapa local da I Conferência Nacional de Comunicação (Confecom). As discussões emperraram quando o tema passou a ser a composição do conselho. O impasse, criado pelo empresariado, coloca na berlinda inclusive o acordo já alcançado em relação às funções do órgão.

Burocracia

O resultado das discussões, entretanto, dependem em grande parte da vontade política do governo estadual, já que o GT é composto por dois representantes da sociedade civil, dois representantes dos empresários e quatro representantes do governo estadual. Após o trabalho do GT, o texto ainda deverá passar pela Casa Civil e, talvez, pela AL. “Vamos ter de continuar pressionando pela integridade do conselho”, comenta Sivaldo Pereira, membro do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social e suplente do GT.

Início dos debates

A criação do conselho baiano foi anunciada durante a 1ª Conferência Estadual de Comunicação, realizada em 2008, antes mesmo da convocação da Confecom. As discussões no interior e na capital demonstraram que, apesar da legislação e estrutura administrativa historicamente federalizar o debate sobre as comunicações, existem forças econômicas e políticas interessadas em participar das decisões em nível regional. Neste contexto, houve uma valorização das políticas locais, sendo o Conselho Estadual de Comunicação resultado direto deste processo.

Após uma primeira fase de estudos sobre o papel dos conselhos a partir de experiências nacionais, o GT iniciou o debate das finalidades com avanços significativos, em especial na predisposição de todos os setores por dar caráter deliberativo ao órgão. Porém, em relação à composição, os empresários exigem a divisão paritária entre os setores – um terço para o empresariado, um terço para o setor público e um terço para representantes de outros setores sociais.

Na quarta-feira, 28, às 14 horas, os três setores apresentarão suas posições em uma reunião aberta na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, que funcionará como consulta pública.

A previsão inicial era que o GT fechasse a proposta no fim de abril, mas o Executivo estadual dá sinais de adiamento do prazo. O governo não tem apresentado muitas sugestões ou demandas, mas, até agora, as posições colocadas à mesa foram de convergência com os empresários em relação ao enxugamento das atribuições do Conselho.

Composição

A proposta em discussão sobre a composição do GT também prevê uma estrutura enxuta. Até o momento, prevê-se que o número de membros deva ficar entre 21 e 25, número pequeno em comparação a outros conselhos.

Já em relação à divisão das vagas, a polêmica está instaurada. Os empresários almejam garantir um terço das cadeiras, sob justificativa de que o poder econômico deve ser enaltecido no Conselho. A premissa à qual o setor empresarial tem recorrido é a metodologia usada na 1ª Confecom. Na conferência nacional, a “sociedade civil empresarial” teve direito a 40% dos delegados, número idêntico ao da “sociedade civil não empresarial”. Além disso, houve a instituição do direito ao “voto sensível”, a possibilidade de um dos setores exigir quórum qualificados nas votações.

Além disso, os empresários defendem ainda que a universidade e os produtores de comunicação comunitária devem ser colocados na cota na sociedade civil.

No geral, as entidades originárias da Comissão Pró Conferência da Bahia tentam se fortalecer na estrutura de conselhos de outras áreas, como a saúde e a educação, para tentar evitar este formato de divisão. Sivaldo Pereira lembra ainda que, conceitualmente, entes privados não podem participar de deliberações públicas, porém frente a conjuntura é inevitável a participação do setor empresarial.

Finalidades

Embora ameaçada pelas negociações sobre a composição, há alguma convergência em relação ao caráter e às finalidades do Conselho Estadual de Comunicação. Até o momento, a sinalização dos empresários é apoiar o caráter deliberativo do conselho e a ida do projeto à AL. Quanto às finalidades e competências, há acordo sobre a tarefa de traçar um Plano Estadual de Comunicação. “Certamente as pautas da conferência (estadual) deveriam estar nesse conselho, para que se veja até que ponto as demandas da sociedade civil são implementadas pelo Estado”, enfatiza Daniella Rocha, integrante da Cipó Comunicação e uma das representantes da sociedade civil no GT.

Por outro lado, segundo ela, há uma grande polêmica em relação às competências do novo órgão em relação às verbas destinadas à publicidade governamental. A preocupação em garantir que o conselho tenha influência nesta questão se justifica pelo fato de o executivo estadual ser o maior anunciante do mercado publicitário baiano, mas serem restritas as ações para redirecionar os investimentos através de projetos e políticas que valorizem a diversidade e pluralidade no setor.

O objetivo da sociedade civil é que o conselho tenha, entre suas atribuições o incentivo à comunicação comunitária, iniciativas voltadas para as violações aos direitos humanos na mídia (como observatórios e centros de estudos) e outras experiências alternativas e populares no estado, além da participação nas atividades dos órgãos de radiodifusão e imagem estatais.

Fragilidade institucional

Na condução do GT, o primeiro desafio foi encarar a fragilidade institucional dos Conselhos de Comunicação, a começar pelo engavetamento de duas propostas na Assembleia Legislativa (AL) baiana nas décadas de 1980 e 1990, sob justificativa de inconstitucionalidade. “Enquanto temos 20 anos de Constituição, em que se avança na democracia participativa, na área de comunicação a gente retrocede. É certo que a gente não tem censura, mas estamos numa ‘terra de ninguém’, sem legislação, nem nada”, sublinha Daniella Rocha.

Outra preocupação apontada pelos representantes da sociedade civil é a estrutura institucional ao qual o conselho estará vinculado. A quase inexistência de um sistema público de comunicação, nos moldes da saúde e da educação, é um dos argumentos dos empresários para tentar limitar o alcance das ações do conselho na origem. Este argumento tem sido ratificado pelo governo estadual nos poucos momentos em que este apresenta posicionamentos dentro dos debates do grupo de trabalho.

Estruturação da proposta

Sivaldo Pereira reforça duas questões que devem ser levadas em conta na estruturação da proposta: “Primeiro, ele tem de ter poder de discutir e deliberar. Segundo, é preciso garantir a legitimidade do conselho. Ele pode ter poder, mas se seus membros forem indicados apenas pelo Executivo, não vai servir pra nada.” Pereira ressalta que os representantes da Comissão Pró Conferência da Bahia que integram o GT têm atuado com unidade, defendendo o caráter normativo, fiscalizador e consultivo do conselho. O grupo também quer que o projeto passe pela Assembléia Legislativa, ganhando força de lei e, portanto, política permanente do estado.

Por Levi de Freitas

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Controle social da mídia para democratização da comunicação

Programada para dezembro a primeira Conferência Nacional de Comunicação, Confecom, que juntará as sugestões mais polêmicas para o setor, já produzidas nos meios acadêmico e sindical. Os assuntos a serem debatido vão desde a volta da estatal Embrafilme, extinta durante o mandato do presidente Fernando Collor, à criação de mecanismo para o controle social da mídia e a concessão de canal de TV para as centrais sindicais.

É justamente sobre a questão da criação de um mecanismo para o controle social da mídia que irei, durante esse post, me deter.

É importante lembrar que a criação de um mecanismo para o controle social da mídia está diretamente relacionado a problemática da democratização da comunicação no Brasil. Essa conferência permitirá ou tentará abri novos caminhos para que ocorra um avanço na democracia, no que diz respeito aos meios de comunicação de massa.

O Brasil é um país que possui ainda uma diversidade interna e externa bastante reduzida. Ou seja, os diversos órgãos de imprensa não permitem o confronto de informações divergentes e coberturas balanceadas em que todos os lado em disputa sejam contemplados. A existência de fato de uma diversidade de informações nos meios de comunicação de massa são limitados. Aliados a existência de monopólios familiares isso contribui muito para a manipulação de informação dada às massas.

A criação de um mecanismo para o controle social da mídia, questão que irá ser discutida na Conferência Nacional, é de suma importância para a ampliação da democratização da comunicação, pois poderá contribuir para nos deixar mais próximos da idéia de um pluralismo regulado em que as funções mais básicas da imprensa em uma democracia, como vigiar e fiscalizar o poder, promover o debate pluralista e mobilizar civicamente o cidadão sejam, de fato, efetivas entre nós.

A questão de democratização nos meios de comunicação, sofreu avanços se comparamos com a década 70 e 80, mas ainda não são suficientes para o exercício de uma democracia plena. A internet deve ser ressaltado, porque proporcionou aos usuários uma gama de opções nos mais diversos assuntos do país, mas, infelizmente não é todos que pode acessá-la. Por isso se faz necessário a existência de um jornalismo de informação consolidado.

Sabemos que ser completamente imparcial nas informações, a serem deferidas para a população, é uma tarefa difícil de ser completada, mas não rara de ser encontrada, devido à ampliação da diversidade interna e profissionalização dos jornalistas e a presença de meios de crítica da mídia bastante ativa, como o Observatório da Imprensa.

Fonte: Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação


Por Thaíssa